A esmagadora cobrança que mata!
- André Gandelman
- 19 de fev. de 2021
- 2 min de leitura
No dia 06/02/2021, o jogador de futebol Uruguaio, Santiago Damián García Correa (Morro Garcia), foi encontrado morto em sua residência. Suicidou-se com uma arma de fogo. Tinha 30 anos e jogava pelo Godoy Cruz, da Argentina.
O jogador sofria de depressão e estava afastado do convívio social pela contração de COVID-19 em 22/01/2021.
Sensibilizados com o acontecimento, um grupo de jogadores uruguaios fez um vídeo pedindo menos pressão aos jogadores. Neste vídeo, o telespectador é questionado se faz tudo sempre certo; se ganha sempre; se todos os seus dias são bons; se seus resultados são sempre os melhores possíveis. E que, antes de atletas, são seres humanos. Tem sentimentos, famílias, e todos à sua volta estão sendo afetados também.
O contra-argumento do ser humano médio, via de regra é: “É claro! Com estes salários astronômicos eles tem que ganhar sempre! É um absurdo o que se paga a esses atletas!”
Se o atleta recebe um alto salário é porque mereceu. E provavelmente seu retorno é ainda maior para o clube. E se não é, azar de quem fez a oferta. Ainda sim não se justificam os insultos.
Não é porque se teve um dia ruim que pode ser acusado, discriminado, ameaçado de morte.
As redes sociais facilitam o assédio. Por estar escondido e protegido por trás de uma tela, o indivíduo sente que está seguro, que pode dizer o que quiser ao outro, sem pudor nem pensar nas consequências.
Em 2015, a FIFPro, sindicato internacional de atletas, fez um levantamento com profissionais em atividade ou que já se aposentaram, e eis os números:
38% dos atletas em atividade e 25% dos ex-atletas relataram já ter sofrido ansiedade ou depressão.
Com este tema, me vem à mente os jogos olímpicos. Sempre me recordo das ofensas que nadadores e judocas sofrem se não trazem medalhas. São aviltados sem nenhum dó. Como se fossem incompetentes!
Vale a lembrança que numa final de natação estão os 8 melhores DO MUNDO de cada categoria. Quem desses que oferece insultos (ou qualquer um de nós) está entre os 8 melhores da sua profissão?
Ainda que estivesse, seguramente não garante o direito de insultar ao próximo, mas vale sempre a reflexão de olhar para dentro antes de olhar para fora.
E infelizmente essa realidade não é só no esporte. Como já mencionei em outros vídeos e posts, o Brasil é o país mais ansioso do mundo (10% da população, frente a 3,6% da média mundial), segundo levantamento da OMS.
Então, o que será que está acontecendo por aí nas organizações que passa despercebido? Como estão os cuidados com a mente dos colaboradores?
Tenho recebido contatos de pessoas jovens, por vezes adolescentes, com depressão, sem nenhuma inteligência emocional e capacidade de superar suas frustrações.
Como será que essas pessoas estão chegando ao mercado de trabalho? Como o mercado está tratando essas pessoas? Será que o que aconteceu com Morro Garcia não será mais frequente nos próximos anos? Como os gestores e RHs estão lidando com essa realidade?

Comentarios